terça-feira, 17 de agosto de 2010

Galanteio aos olhos

Depois de cumprido todo o cerimonial de entrada na sala para o exame, fez-se um silêncio fundo, o Mestre começaria, enfim, a ditar as questões a que se seguiria o começo, inevitável, da prova.
Entretanto, o Professor passeava pela sala deitando furtivos olhares policiais que varriam todas as carteiras como a luz de um farol varre o mar.
Mas muito breve os ouvidos dos alunos se habituavam, marcando, pelo som, a distância exacta a que este se encontrava da carteira de cada um.
O acto de copiar pertencia, pois, a cada aluno consoante o maior comprimento da distância a que o Mestre se encontrava nesse momento.
Numa das voltas, porém, um aluno, entusiasmado pela profundidade da ciência que vislumbrava nas cábulas que consultava e ofuscado pela ignorância de que era detentor, não se apercebeu da aproximação do Professor e continuou a sua labuta ao serviço da Ciência ... Silencioso, aquele aproximou-se da carteira, parou e com espanto verificou que o aluno, alheio a tudo, continuava a copiar.
Havia que por fim à fraude. O Professou tossiu para que o aluno desse conta da sua presença, mas nada !
Finalmente o Mestre, perplexo, diz:

-O Senhor julga que eu não tenho olhos ?!...

O aluno, tremendo, esmagado pela situação difícil em que se encontrava, respondeu finalmente:

-Pois tem Senhor Doutor !... E que lindos olhos !...

Depois, como um trovão, ouviu-se a irremediável condenação do delinquente:

-Rua !... Rua !...

Na sala fez-se um silêncio fundo, aterrador, hostil e espesso mas solidário com o prevaricador...
O Mestre sentindo-o resolveu, então dar uma explicação que, em voz forte e solene, encheu a sala e, pelo cómico, desanuviou as apreensões de todos:

-Não foi por copiar! Foi por me dirigir um galanteio aos olhos !...

( Adaptado de: JOÃO FALCATO, Coimbra dos Doutores. Coimbra, Coimbra Editora, Limitada, 1957, pp. 141-146 )