segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Actividades delatórias

Numa prova escrita do professor José Carlos Moreira, aconteceu vir o bedel informá-lo de que o chamavam ao telefone.
Ficaram então os alunos com o bedel e, logo, como num milagre, surgiram debaixo das capas e das batinas, dos bolsos e de todos os lados, livros, sebentas, notas, apontamentos, em auxílio da resolução do ponto e de um final feliz para a prova.
O bedel protestou, mas à pouca eficácia e persuasão do seu veemente protesto não correspondia qualquer atitude de assentimento por parte dos alunos pelo que este tratou de fixar os estudantes mais eficazes na arte do copianço.
À chegada do mestre, novo milagre ! Os livros e as sebentas como que se evaporaram para espanto dos intervenientes e do próprio bedel ...
O bedel, zeloso das nobres funções para que tinha sido investido, num acto com a mesma importância, talvez, de um Doutoramento Honoris Causa, tratou, então, de denunciar ao mestre uma mão cheia de notáveis na arte de bem copiar.
O mestre terminada a exposição do bedel, olhou fixamente para ele retorquindo:

- Ó Sr Bedel, eu não o deixei aqui para exercer actividades delatórias ... mas para o caso de qualquer aluno deixar cair alguma caneta, algum papel ...

( Adaptado de: ALBERTO SOUSA LAMY, A Academia de Coimbra 1537-1990.Lisboa, Rei dos Livros, 1990, p.648.)

sábado, 25 de setembro de 2010

Prego

Um dia um aluno, na aula do professor José Carlos Moreira, mestre das cadeiras de Direito Constitucional e Direito Administrativo, rabeava no seu lugar, perturbando o bom andamento da sábia e catedrática exposição.
O professor inteirando-se do problema, chama o bedel e diz:

- Sr Borges, vá buscar o martelo para rebater um prego, que entrou em conflito aberto com as calças daquele Senhor !

Cumpriram-se as ordens do mestre: o prego recolheu à primeira forma e o sossego voltou à aula, depois de gargalhada geral.

( Adaptado de: HENRIQUE DA SILVA ARAÚJO, Coimbra tem mais Encanto.Crónicas. Coimbra, Livraria Almedina - Coimbra, 2002, p. 102 )

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Doutoramento

No decorrer de umas Provas de Doutoramento em Medicina o examinando responde a um elemento do júri:

No estado actual da Ciência nem eu, nem Vossa Excelência, nem Ninguém poderá responder com honestidade a essa pergunta ...

domingo, 12 de setembro de 2010

Criptorquidia

O Professor Bacalhau, homem de palavra fácil, mesmo quando usada na crítica aos colegas de Lisboa, principalmente se fossem cirurgiões como ele, ( " o Professor Gentil, de nome ", sublinhava o Professor Bacalhau, por exemplo ) , dava umas aulas rígidas, mas às vezes cortadas por alguma pilhéria que encantava e divertia.
Um dia, apresentou no bloco cirúrgico um rapazote de 19 anos, que iria corrigir uma criptorquidia ( testículo fora da bolsa ).
O Professor preferia como técnica anestésica as locais ou raquianestesias, que lhe permitiam falar com os doentes durante o acto cirúrgico.
Neste caso concreto, falou tempo demais nas técnicas a abordar pelo que, o rapazote, aproveitando uma pausa na exposição do professor, levantou a cabeça e declarou:

- Tanto paleio para uma coisa tão pequena !

O professor ficou vermelho e retorquiu:

- Ouve lá, oh rapazinho, quantos anos tens ?

- 19, senhor professor.

- Já foste à tropa ?

- Não senhor.

- Eu já sabia. É que, para ir à tropa, é preciso tê-los no sítio, coisa que tu ainda não tens ! 

( Adaptado de: HENRIQUE DA SILVA ARAÚJO, Coimbra tem mais Encanto.Crónicas. Coimbra, Livraria Almedina - Coimbra, 2002, pp. 93-94. )

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Morcela

Num exame de Pediatria, o Professor Lúcio de Almeida pergunta ao aluno:

" - Quantos litros de sangue tem uma criança ?

- Cinco litros, responde o aluno.

- Isso não é uma criança, é uma morcela ! "

domingo, 5 de setembro de 2010

Exame de Radiologia

Num exame de Radiologia Médica, o Prof. Lúcio de Almeida pede a um aluno para ligar o negatoscópio, localizado junto à porta do anfiteatro.
O aluno, atarantado e sem conseguir decifrar aquilo a que o professor se referia, tenta desesperadamente encontrar essa entidade estranha  ...

" - Siga o fio, talvez pelo fio lá vá !!
E olhe, já que está ao pé da porta, aproveite e saia ..."

sábado, 4 de setembro de 2010

Taxonomia

Bernardo Aires, professor de Zoologia da Universidade de Coimbra tinha uma particularidade que o distinguia e realçava, qual metal reluzente, do restante corpo docente: além de ser sábio era estrábico ...

Um dia numa prova oral dirige-se a um aluno:
- Em quantas ordens se dividem as aves ?
- Pássaros, passarinhos, passarões, aves de cuco e de gaiola ( responde o aluno graçola )
- E que tal um chumbinho para matar essa passarada toda ?
- E que tal um olhinho vesgo para errar a pontaria ... ( responde prontamente o aluno )

Académica de Estudantes

Aquela saudosa Académica nascera à sombra da vetusta e mui nobre universidade e dela tomou o nome, a simpatia e a glória. O desporto naquele tempo ainda não era negócio ...
Pese embora todo este saudável amor ao desporto e ao espírito olímpico da remota Atenas, os regulamentos ditavam que se um estudante repetisse um ano lectivo mais do que duas vezes fosse afastado do saudável convívio dos seus colegas de faculdade e de clube ( qual lâmina afiada suspensa sobre a cabeça do incauto prevaricador ... ).
O jogador em causa era a arma secreta da equipa de futebol. Sempre que jogava a equipa era, de facto, mais briosa. Depressa se torna ídolo dos adeptos, das meninas e da Academia. No entanto, ao afinco demonstrado no desporto este corresponde com um vil desprezo pelos livros ... Logo no primeiro ano reprovou duas vezes seguidas. Se reprovasse mais uma teria de despedir-se do clube, da Universidade e talvez, quem sabe, das meninas ...
Chega o dia de uma oral decisiva ... Toda a Academia é convocada para o anfiteatro onde iria decorrer tão importante prova que iria, de certo, ter um inolvidável reflexo no lugar ocupado na tabela classificativa.
A táctica era, pois, simples. Só restava pressionar o professor uma vez que o candidato gracejava, dizendo:

- "Estejam tranquilos, que o chumbo está garantido ! Não estudei nada ...Estou completamente em branco ..."

O candidato entra no anfiteatro repleto e é aplaudido como um herói ... Pouco depois chega o professor. Ao silêncio sepulcral inicial seguem-se vivas ao jogador. O mestre remete-se à simples condição de aluno em virtude do ambiente criado, em tudo favorável à apologia da ignorância  ...

-Primeira pergunta ( elementar, básica, rudimentar ... ): Nada !
- O Mestre repete a mesma pergunta ( tentando dar indícios de uma inevitável resposta ): Nada !
- Segunda pergunta ( tão ou mais fácil do que a primeira ... ): Nada ! ( parecia que a pergunta havia sido formulada num dialecto estranho, quem sabe se perdido nos confins da História ... )
- Insistência ( suada ) e tentativa de simplificação por parte do professor: Nada !
- Terceira pergunta ( ainda mais fácil do que as duas anteriores ): Nada !

O silêncio do aluno constratava com o carácter ameaçador, agressivo e atento da assistência que aguardava um pequeno sinal para desferir um ataque poderoso, feroz e, quem sabe, felino !

-Veredicto do professor  ( exímio guardião da sua integridade fisica e moral ):
" Como todos viram, o aluno não respondeu bem. Mas, como todos puderam constatar, também não respondeu mal. Por isso, tem dez !"

Naquele momento aquela vetusta sala ficou igual a um estádio de futebol numa final de uma importante prova ganha pelo clube da casa.
Para cumprir a praxe só restava coroar o herói levando-o em ombros até à tasca mais próxima ...

( Adaptado de: JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, " Um Portugal ", Actual, 13 de Março de 2010, p.4.)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Medicina Legal

O Professor Tacos, como era conhecido entre os seus alunos, era baixo, entroncado, sempre em bicos de pés, sapatos de tacão duplo, cabelos a afagar um pescoço ausente e blazers vermelhos-sangue-de-boi sobre camisas brancas com gravatas brancas ou pretas.
E uma chuva de perdigotos até meia sala ...
O dito Tacos regia, na década de 60 do Século XX, em Coimbra, duas cadeiras de Medicina e uma em Direito.
Certo dia, os alunos do curso jurídico de Medicina Legal, baralhados com tanto epigástrico, hipocôndrio e demais jargão com que os médicos dividem barrigas, dirigiram-se-lhe em petição contra o abuso de termos técnicos, ou pelo menos a sua tradução em português de gente.
O Mestre anuiu. E, logo na lição seguinte, explicou os mecanismos da digestão com as necessárias adaptações:
Chamou goela ao esófago, pança ou bandulho ao estômago e tripas ao restante aparelho intestinal consoante estivesse a falar para alunos de Direito ou de Medicina, respectivamente.

" Cuja fisiologia se esgota pela expulsão fecal através do ânus, no caso dos alunos de Medicina, ou a merda saindo pelo olho do cú, no caso dos alunos de Direito,  não sei se os alunos de ciências jurídicas assim entendem melhor ... ", concluiu.

( Adaptado de: RICARDO FRANÇA JARDIM, " O homem-padrão português ", Público Magazine, Domingo, 27 de Novembro de 1994, p.6.)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Prole Desgraçada

Um archeiro da Universidade de Coimbra lamentava-se da sua prole desgraçada: a filha era prostituta, um filho ladrão; outro filho vigarista; outro falsário; outro assassino; outro era drogado e o último, afirmava o pai, rendido à evidência, também era filho da puta !

( Adaptado de: RUI FERREIRA COELHO, Humor de Angola e não só. Vila do Conde, 1989, p. 66.)