O Professor Tacos, como era conhecido entre os seus alunos, era baixo, entroncado, sempre em bicos de pés, sapatos de tacão duplo, cabelos a afagar um pescoço ausente e blazers vermelhos-sangue-de-boi sobre camisas brancas com gravatas brancas ou pretas.
E uma chuva de perdigotos até meia sala ...
O dito Tacos regia, na década de 60 do Século XX, em Coimbra, duas cadeiras de Medicina e uma em Direito.
Certo dia, os alunos do curso jurídico de Medicina Legal, baralhados com tanto epigástrico, hipocôndrio e demais jargão com que os médicos dividem barrigas, dirigiram-se-lhe em petição contra o abuso de termos técnicos, ou pelo menos a sua tradução em português de gente.
O Mestre anuiu. E, logo na lição seguinte, explicou os mecanismos da digestão com as necessárias adaptações:
Chamou goela ao esófago, pança ou bandulho ao estômago e tripas ao restante aparelho intestinal consoante estivesse a falar para alunos de Direito ou de Medicina, respectivamente.
" Cuja fisiologia se esgota pela expulsão fecal através do ânus, no caso dos alunos de Medicina, ou a merda saindo pelo olho do cú, no caso dos alunos de Direito, não sei se os alunos de ciências jurídicas assim entendem melhor ... ", concluiu.
( Adaptado de: RICARDO FRANÇA JARDIM, " O homem-padrão português ", Público Magazine, Domingo, 27 de Novembro de 1994, p.6.)