Aquela saudosa Académica nascera à sombra da vetusta e mui nobre universidade e dela tomou o nome, a simpatia e a glória. O desporto naquele tempo ainda não era negócio ...
Pese embora todo este saudável amor ao desporto e ao espírito olímpico da remota Atenas, os regulamentos ditavam que se um estudante repetisse um ano lectivo mais do que duas vezes fosse afastado do saudável convívio dos seus colegas de faculdade e de clube ( qual lâmina afiada suspensa sobre a cabeça do incauto prevaricador ... ).
O jogador em causa era a arma secreta da equipa de futebol. Sempre que jogava a equipa era, de facto, mais briosa. Depressa se torna ídolo dos adeptos, das meninas e da Academia. No entanto, ao afinco demonstrado no desporto este corresponde com um vil desprezo pelos livros ... Logo no primeiro ano reprovou duas vezes seguidas. Se reprovasse mais uma teria de despedir-se do clube, da Universidade e talvez, quem sabe, das meninas ...
Chega o dia de uma oral decisiva ... Toda a Academia é convocada para o anfiteatro onde iria decorrer tão importante prova que iria, de certo, ter um inolvidável reflexo no lugar ocupado na tabela classificativa.
A táctica era, pois, simples. Só restava pressionar o professor uma vez que o candidato gracejava, dizendo:
- "Estejam tranquilos, que o chumbo está garantido ! Não estudei nada ...Estou completamente em branco ..."
O candidato entra no anfiteatro repleto e é aplaudido como um herói ... Pouco depois chega o professor. Ao silêncio sepulcral inicial seguem-se vivas ao jogador. O mestre remete-se à simples condição de aluno em virtude do ambiente criado, em tudo favorável à apologia da ignorância ...
-Primeira pergunta ( elementar, básica, rudimentar ... ): Nada !
- O Mestre repete a mesma pergunta ( tentando dar indícios de uma inevitável resposta ): Nada !
- Segunda pergunta ( tão ou mais fácil do que a primeira ... ): Nada ! ( parecia que a pergunta havia sido formulada num dialecto estranho, quem sabe se perdido nos confins da História ... )
- Insistência ( suada ) e tentativa de simplificação por parte do professor: Nada !
- Terceira pergunta ( ainda mais fácil do que as duas anteriores ): Nada !
O silêncio do aluno constratava com o carácter ameaçador, agressivo e atento da assistência que aguardava um pequeno sinal para desferir um ataque poderoso, feroz e, quem sabe, felino !
-Veredicto do professor ( exímio guardião da sua integridade fisica e moral ):
" Como todos viram, o aluno não respondeu bem. Mas, como todos puderam constatar, também não respondeu mal. Por isso, tem dez !"
Naquele momento aquela vetusta sala ficou igual a um estádio de futebol numa final de uma importante prova ganha pelo clube da casa.
Para cumprir a praxe só restava coroar o herói levando-o em ombros até à tasca mais próxima ...
( Adaptado de: JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, " Um Portugal ", Actual, 13 de Março de 2010, p.4.)