domingo, 11 de dezembro de 2011

Primeira aula na Lusa Atenas

A primeira aula ia começar. Para muitos, senão para todos, era a materialização dum sonho arrastado sete anos pelo liceu e que apesar da frieza de todo o cenário, começava a realizar-se. Estavam finalmente na Universidade !
Pretendia o Mestre que, desde o primeiro minuto, fosse anulado entre ele e os seus alunos qualquer constrangimento que o facto de não se conhecerem produzisse. Portanto, para que desde aquele minuto eles fossem como velhos conhecidos - que em breve o convívio quase diário tornaria amigos -, a chamada ia fazê-la ele mesmo, Mestre.
E, porque era um homem prático e tinha o dever de, como Mestre, ensinar desde o início do curso, permitia-se dar aos seus alunos um exemplo de economia do tempo, pedindo licença para eliminar o tratamento de " senhor " na enunciação do nome de cada um dos presentes.

- Quero frizar bem que isto não representa, de forma alguma, menos consideração pelos alunos.
E se me dão licença, começo a chamada:

- António Aarão Torres

Do fundo do banco uma voz tímida gritou um tímido:
- Presente !

A chamada prosseguiu no mesmo tom até ao momento em que o Professor gritou outro nome:
- Manuel de Lencastre de Sousa e Vasconcellos.

Houve uma pausa, um silêncio. O Professor preparava-se para fazer o sinal de " falta " quando um aluno se ergue, fica hirto uns segundos, fita o Mestre e diz em voz forte:

- Dom ... Dom Manuel de Lencastre de Sousa e Vasconcellos ! Dom ... pela Graça de Deus !!

Estas palavras foram pronunciadas numa voz tão firme, numa posição postural tão rígida, com intervalos tão decididos, continham um propósito tão deliberado de correcção, que um movimento de espanto varreu a sala.

No meio desta espectativa atónita, o Professor, que nem um só momento deixara de contemplar o aluno, como que para ganhar uns segundos de serenidade, tira o monóculo, limpa-o ao lenço, coloca-o depois vagarosamente na órbita e responde:

- Então Deus fez isso por graça, e o Senhor tomou o caso a sério ?! ...

( Adaptado de: JOÃO FALCATO, Coimbra dos Doutores. Coimbra, Coimbra Editora, Limitada, 1957, pp. 14-19 )